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Um homem de bem

Há pessoas que passam brevemente pela nossa vida e mesmo assim conseguem deixar marcas e liçōes profundas. Foi isso que me veio à mente quando recebi a notícia do falecimento do Sidnei Basile, um grande jornalista, que — tenho certeza — foi inspirador para muitos jornalistas que cresceram com ele e depois de “passarem” por ele.

O falecimento de Sidnei foi a primeira informação que tive hoje, recebida da boca de minha esposa. Não poderia ser diferente e aqui vai a 1a lição das três que recebi dele e que compartilho aqui. Quando comecei a namorar minha esposa, nós trabalhávamos juntos. Tentávamos lidar com o fato com a maior maturidade possível para quem está na casa dos 20 anos. Entretanto, nem todos na equipe aceitavam, principalmente porque minha esposa era na época minha chefe! Quando a situação ficou realmente tensa, Sidnei agiu para desanuviar. Contou histórias de casais que se conheceram nas redaçōes (jornalistas têm destas manias) e disse que isso era normal ao reconhecer que com maturidade isso era possível. A tensão se dissipou e aí percebi claramente um líder em ação.

A segunda lição que recebi de Sidnei foi quando pedi um horário para informar a ele que estava deixando a revista para trabalhar em outra empresa, não-jornalística. Sua frase foi lapidar e memorável. “Vai lá, aprende e volta para o jornalismo. Afinal, jornalistas são como comunistas, prostitutas e ladrōes: nunca desistem, só descansam!” Sidnei, ainda não voltei para o jornalismo, mas tenha certeza que nunca desisti! Jornalismo é algo que se nasce com. Não há escolha. Há, sim, jeitos de se trabalhar com a informação, a alma do jornalismo.

E no final de 2009, a última vez que tive a sorte de encontrar e aprender com o Sidnei, caminhávamos em busca de um café no Parque Ibirapuera, no intervalo de uma atividade do Planeta Sustentável, projeto importante e de vanguarda da Editora Abril. O Planeta Sustentável trata de construir um mundo melhor. Como não poderia ser diferente, Sidnei estava diretamente envolvido. Cuidar das coisas e das pessoas estava na sua índole. Então, a caminho do café, Sidnei comentava da viagem que havia feito com sua família. Refletindo sobre a vida, disse que, mais do que trabalho ou cargos ou posiçōes, o que ficava da existência eram os bons momentos curtidos com pessoas queridas.

E ali caiu minha ficha: Sidnei sabia aproveitar a vida, fazendo o bem para quem estava por perto. Mais do que tudo, a lembrança que guardarei dele é a de que foi um homem de bem. Descanse em paz, Sidnei. E esta lágrima é um ponto final.

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Free surf forever

G-Land, upload feito originalmente por Rodrigo VdaC.

Peguei uma revista Trip atrasada para ler no final de semana.
Lá pelo início da revista, veio a surpresa. Uma coluninha chamada Tubos, Câmera, Ação. O conteúdo era sobre as filmagens de Pedro Manga, o moleque da foto acima. Em 2000, ele ‘mandou’ esse cutback redondo em G-Land, no meio de um parque florestal na ilha de Java, Indonesia. A semana em G-Land foi uma de oito que passamos na Indo. A cada dia que passava, Pedro calibrava seu surfe. Isso enquanto não dava um jeito de se raspar um pé ou amassar o nariz à bordo de uma motinho, dessas que existem aos milhares no sudeste asiático. Cada um dos surfistas daquela viagem incrível seguiram suas vidas. Gugo se formou em arquitetura. Bruno em cinema (hoje é ator). Moisés comprou uma câmera fotográfica de Balão (que não sei onde está) e hoje é fotógrafo de surfe. Eu estou por aqui. E Pedro está pelo mundo. Já ganhou prêmio de maior vaca (caldo) do ano. Já apareceu nas páginas das maiores revistas do país pegando ondas incríveis (difíceis, pesadas, perigosas) no Taiti. E agora está se especializando em filmar tubos. A partir deles. Pedro manteve vivo o sonho de cada um dos cinco daquela barca.
Sinto prazer em ver as conquistas desse moleque. Mais ainda depois de ver o quanto se jogava nas ondas cascudas de Bali, sem medo do coral, sem medo do que poderia acontecer. A foto abaixo não deixa mentir.

Pedro Manga curtindo uma deprê depois de quebrar o instrumento de trabalho. Periscopes, Sumbawa, Indonesia (2000)

Pedro Manga curtindo uma deprê depois de quebrar ao meio o instrumento de trabalho

O video abaixo (clique aqui se não estiver funcionando) mostra uma filmagem incrível, de dentro do tubo, em Teahupoo, uma das ondas mais perigosas do mundo.

Conquistou o lugar onde está. Vai lá, moleque, dropa essas por nós!

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Jungle Juice: terremoto em Padang traz recordações do Sari Club, em Bali

Ontem à noite, apesar de não conhecer (ainda) Padang, na ilha de  Sumatra, na Indonésia, base de surfistas que exploram ilhas paradisíacas do pacífico, ao saber do terremoto, tive uma sensação parecida com o dia 12 de outubro de 2002. Naquele dia, explodiram o Sari Club, em Bali, lugar que eu frequentava bastante quando fiquei por lá 60 dias em 2000 (fotos da viagem no Flickr). Fiquei chocado com a notícia. Tanto que sentei na hora e escrevi as linhas abaixo no computador. O original está publicado no Waves (na época não havia blog).

Terremoto é algo chocante demais. Impressionante como varre a história de um local em poucos segundos. Mais impressionante ainda é como as localidades, as pessoas, todo mundo, se recupera e segue tocando a vida em frente. Afinal, não há outro jeito.

Segue o texto que escrevi em 2002 (aqui, no original):

Boate atingida era reduto de brasileiros na noite balinesa

Por Rodrigo Vieira da Cunha em 15/10/02 14:10 GMT-03:00

Jungle Juice. Confesso que até hoje não entendi direito porque o drink tinha aquele nome. Era uma coisa rosada-alaranjada com um leve gosto de fruta e um pesado cheiro de vodca. Talvez tenha sido batizado assim em homenagem a alguma fruta da Indonésia. Para brasileiros não havia grande novidade, afinal, “jungle” é o que não falta no Brasil.

Mesmo assim, era a bebida preferida da turma do Balão, formada por um paulistano de descendência japonesa que comandava a diversão da turma dos imigrantes-brasileiros-que-trabalhavam-no-Japão-para-ficar-seis-meses-em-Bali. Márcio, Nando e até Bingin, um francês de pele negra, alto, de cabeça raspada, segurança de casa noturna em Paris que não falava duas palavras em inglês, estavam sempre acompanhados por um Jungle Juice no Sari Club.

Até havia outras casas noturnas em Bali, como o Double Six e o Bounty, mas o Sari era o ponto de partida e também de chegada. Brasileiro tinha má fama. Talvez por causa dos primeiros surfistas que chegaram por lá, provavelmente na mesma época em que o jiu-jitsu já havia se popularizado na beira da praia no Rio, São Paulo e no sul.

Em Bali tudo é motivo para festa, principalmente no Sari Club. Foto: Darci.

A fama era de que provocávamos briga e confusão. Os seguranças (ou o nome que se possa dar aos minúsculos leões-de-chácara balineses) ganhavam os brasileiros pelos pés. Os balineses desenvolveram um método próprio de identificar quem era quem antes da abordagem, para conversar ou para vender. Nossa origem era denunciada pelas sandálias havaianas.

Nosso calçado oficial em Bali fosse para pegar onda, fosse para jantar, fosse para dançar, era passaporte para os bli (o mesmo que balinês) dizerem algo do gênero: “Fala, memo!”, para dizer “Fala, meu irmão”, ou “Gatina gostosa”, para dizer “Gatinha gostosa”. Estas e outras frases – que repetiam feito papagaios – sempre vinham antes da oferta de alguma mercadoria (artesanato da loja do pai) ou serviço (onde comprar maconha, por exemplo). Palavras básicas de qualquer língua serviam para começar um bate-papo.

No Sari não tinha muita intimidade ou brincadeira. Os seguranças queriam mesmo era achacar dinheiro de brasileiro. Era uma espécie de taxa por “antecedentes criminais”. Nossa técnica de contra-ataque era fácil. Entrávamos no Sari com a cabeça erguida (acredite, eles eram menores que a gente!) e sem olhar para o lado. Funcionava em 90% dos casos. Quando não, vinham pedir 5 mil ou 10 mil rúpias (entre 50 centavos e um dólar) para entrarmos.

A onda de Padang é a mais procurada por quem está em Bali. Foto: Darcy.

Obviamente, não pagávamos. Desconversávamos (um: “hello, my friend” ajudava). Algumas vezes, nos vendiam uma Bintang (a Brahma local) por baixo dos panos.

No lugar do preço habitual de 10 000 rúpias, cobravam 5 000 rúpias. A cerveja vinha quente. A compra “ilegal” não era para economizar esta mixaria. Era para jogar o jogo dos seguranças. Se você comprasse a mercadoria dele hoje, amanhã você deixava de ser incomodado.

E como incomodavam. Ninguém podia ficar parado na beira da pista com as mãos vazias. Um deles sempre estava lá para exigir que você comprasse alguma bebida (uma espécie de consumação profissional balinesa). A turma do Balão comprava Jungle Juice. Eu comprava cerveja. E Gugo comprava água. Apesar disso, o Alemão era sempre o mais agitado da turma.

Dançava reggae, rock dos anos 80 e trance, claro, como se tivesse bebido um engradado de Jungle Juice. Era sempre o primeiro a chegar no Sari. Enquanto a turma checava e-mail em um das dezenas de cybercafés de Kuta, Gugo preferia observar o movimento antes da pista abrir. Só meu irmão Bruno conseguia concorrer na categoria balançar o esqueleto, em algumas noites inspiradas.

Pôr-do-sol mágico em Padang. A ilha de Bali nunca mais será a mesmaFoto: Adriana Jordão.

Às 22 horas era um bom horário de chegar. A pista ainda estava devagar e podíamos tomar alguma coisa sem acotovelamentos. À meia-noite já ficava um pouco difícil de circular. A pista do Sari não era grande – cerca de 15 metros de diâmetro.

Ao redor dela, havia algumas mesas e um bar com bancos altos. À esquerda da pista de quem entrava na danceteria estava o outro bar. Este era mais estratégico. Ficava perto da pista e da entrada, onde havia cerca de cinco mesas que davam para a rua.

Nunca sentamos em uma destas, onde geralmente ficavam turistas mais perto dos 40 anos do que dos 30. Eles faziam uma turma homogênea, de pele bronzeada. Muito ao contrário dos freqüentadores da pista e das mesas mais ao fundo. A fauna era totalmente variada. Havia surfistas brasileiros (nós!), americanos, australianos e peruanos. Nos dias de mar pequeno, esta população crescia. Uma variação que não acontecia com a turma da balada. Eles estavam sempre lá, em peso.

Infográfico do local do atentado em Bali. Foto: Portal Terra.

Afinal, a cor denunciava, estavam em Bali pela vida noturna. Eu ficava impressionado com a quantidade de gente branca, totalmente branca, na pista. Gente que fazia festa até o dia amanhecer (mas não no Sari, que fechava às 2 horas) e não pisava nas areias de Bali.

Era interessante o contraste: de um lado a turma da praia, homens e mulheres com o mínimo de roupa emoldurando peles bronzeadas, e de outro os baladeiros, em geral de camisa larga para disfarçar a barriga. Em comum, a dança.

Raramente ficávamos depois da meia-noite. Quando isso acontecia, bebíamos todas e só voltávamos para o Warung Indra, nossa pousada-QG, quando tínhamos certeza de que não havia nenhum outro lugar aberto para tomar a saideira. Geralmente o Bounty, lugar do segundo escalão da Legian, rua onde ficava o Sari Club, estava. Era o preferido dos espanhóis: Axel, Paulo, Ganu e Jesus.

Fachada do Sari Club depois do atentado terrorista: tristeza. Foto: AP/Terra.

Quando o Sari fechava, quem ainda queria dançar ou paquerar ia para o Bounty. O diferencial é que ali havia uma mistura de estrangeiros com nativos. Os espanhóis gostavam disto.

No Sari, balinês não entrava, com exceção dos garçons. Sem dúvida, por essa razão, ontem, dia 12 de outubro, a casa tenha entrado de vez para a história folclórica de Bali, a “ilha dos Deuses”, paraíso dos turistas e surfistas.

Um atentado terrorista explodiu o Sari Club. No levantamento mais recente, havia 188 mortos e 281 feridos, levando em conta as vítimas de outra explosão, em um restaurante perto de Denpasar. Muita gente com Jungle Juice na mão.

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Confraria dos Surfistas – o link

Dia desses fui até a TV Ideal participar de uma conversa no programa Confraria. O tema era surfe. Minha ex-chefe me indicou. Vai, não vai, resolvi ir. Achava que seria legal no mínimo para conhecer pessoas interessantes.

Dito e feito. O mais figura de todos foi o Oswaldo Pepe, sobrem quem já escrevi aqui. Ainda temos um almoço para marcar, mas o encontro já rendeu frutos legais. Indiquei para o cara um possível tradutor para o livro que ele está escrevendo sobre o surfista rebelde Miki Dora, conhecido como “Da cat” e mais recentemente para um jornalista que queria fazer uma matéria sobre a primeira vez de coisas marcantes. Se topar, Pepe vai falar de como começou a pegar onda. E de minha parte, tive acesso ao melhor boletim de ondas de surfe jamais produzido no Brasil, o LiquidDreams, sobre o qual já falei aqui. Para receber, envie um e-mail para  liquiddreams78@gmail.com

Segue aí o link da matéria para terem uma ideia de como foi. Gostei da experiência.

E segue aqui o link para o primeiro post sobre o assunto.

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A geração que vem por aí

Fui almoçar com três grandes amigos hoje. Essa já foi a terceira sessão do almoço, dessa vez com um novo convidado na turma. É um momento para trocar ideias, descompromissadamente, e refletir sobre a vida.

Falamos sobre criatividade, de como “encontrar ‘sims’ nos ‘nãos'” e valorizar o trabalho dos funcionários, sobre empreendedorismo e sobre a próxima geração que vem aí, a geração G, de generosidade. Fiquei refletindo sobre esse último ponto e depois vou tentar conseguir a referência do estudo para compartilhar. O que os autores apontam é que a geração que está chegando nas empresas é chamada de Millenial. É a turma que está vivenciando a emergência desse novo mundo pós virada de milênio (que para muitos começou com a queda do mundo de Berlim e que para outros começou mesmo depois do 11 de setembro de 2001 — Bin laden, lembram?).

Essa geração dos Millenials é muito conectada. Faz as coisas em modo Beta (sempre em aperfeiçoamento), não tem medo de não entregar um produto pronto, compartilha muitas coisas, divide ideias e busca um jeito de construir em conjunto. Em geral, essas pessoas estão conectadas e vivem num ambiente — a rede — em que se valoriza como nunca a vontade e a disposição de colaborar. É o contrário da geração do controle, que precisava da informação para dominar, controlar e direcionar. O poder do controle. Delete. Isso está ficando para trás.

O processo de criação é muito diferente. No sistema operacional Linux, por exemplo, gratuito, os programadores que mais contribuem ganham o reconhecimento e notoriedade da rede. Mas não ganham nenhum tostão. Em ferramentas como Facebook, Orkut e Twitter, as pessoas competem por popularidade. Quem tem mais amigos ou mais ‘seguidores’. É um incrível jeito novo de ver e agir no mundo. Os blogueiros buscam o reconhecimento e — quem sabe — algum dinheiro. Mas isso chega até a ser secundário. Veja o caso dos piratas da rede, que disponibilizam arquivos e até fazem legendagens de séries de TV americanas para as pessoas verem — de graça — em seus computadores, antes de chegaram ao Brasil e a outros cantos do mundo. Sobre isso, vale a pena ler a matéria “Os capitães da pirataria”, da Revista Trip.

A geração atual é um preview, um trailer, uma preestreia da Geração G. Porque a atual já compartilha e recompensa bem quem o faz. Mas que tal uma geração onde essa seja a regra. Pois é essa tal da Geração G, de generosidade. Onde o compartilhar será parte do dia-a-dia. E as pessoas serão remuneradas por isso. Como seria uma empresa, uma organização governamental, uma ONG nesse mundo novo? Como todos concordamos no almoço — gostaria de estar na ativa, trabalhando, para ver essa turma em ação.

Não perco por esperar o próximo encontro!

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Trabalho num lugar…

Trabalho num lugar…

…em que as pessoas querem mudar o mundo.

…em que as pessoas falam que o trabalho delas não é beijar macacos ou abraçar árvores.

…em que as pessoas fazer curso para se tornarem ‘viabilizadoras’.

…em que as pessoas rodam o Brasil para compartilhar sonhos e aprendizados.

…em que o trabalho é tão legal que muitos ainda desconfiam que seja verdade.

…que o objetivo é acabar com o próprio trabalho quando a missão estiver cumprida.

…em que as pessoas são quase ecochatas ou biodesagradáveis!

…em que se toma café com o stakeholder.

…em que se toca um sino para anunciar as boas novas.

…em que as pessoas trabalham para os outros levarem os méritos ou ‘fazerem o gol’.

…cujo grande objetivo é ‘engajar’ as demais pessoas.

…em que o nível de exigência é muito alto, mas encontra abrigo na confiança mútua.

…em que as pessoas estimulam, entendem e valorizam projetos pessoais.

…em que todos se especializaram em driblar resistências.

…em que toda hora se tenta mostrar como isso tem a ver com o negócio.

…em que há espaço para advogados, administradores, psicólogos, educadores, cientistas sociais, biólogos e até para jornalistas.

…em que as pessoas muitas vezes não conseguem explicar o que fazem para amigos e família.

…em que pouco se copia e muito se cria.

…em que se criam sinceras amizades.

…em que até já me deu vontade de trabalhar depois de voltar de férias!

…que transformou minha vida.

…que vai me deixar saudades.

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O espírito do surfe

Acabei de ler recentemente o livro Fôlego, de Tim Winton, um escritor australiano. Trata-se de um romance de formação, que acompanha o crescimento e adolescência do personagem principal, Pikelet. Ele tem um amigo de sua idade,  Loonie, um sujeito experiente que serve de guru para ambos, Sando, e sua mulher Eva. O pano de fundo é o descobrimento do surfe e dos limites individuais. Winton é de uma linhagem de autores que torna universal aquilo que é peculiar ao seu habitat. Já foi comparado a Mark Twain e William Faulkner.

Li cada palavra com gosto e muita inveja branca. Me deu vontade de ter escrito aquele livro e me motivou a colocar a escrita em dia. Rabisquei as páginas, os parágrafos, as palavras colocadas no lugar certo. Gostaria de ter lido em inglês, mas como foi presente (o melhor que ganhei de Natal, da minha sempre certeira esposa), foi em português mesmo. Longe de ser um problema, pois a tradução é excelente.

Em cada descrição sobre o ‘surfar’ uma onda, sobre os diálogos, as dúvidas, as prioridades, eu me identificava nos tempos de Capão da Canoa, quando os três meses que passávamos no litoral giravam em torno da hora em que a gente cairia na água para surfar.

No livro, Sando é o guia de Pikelet e Loonie na descoberta do surfe. Isso eu não tive. Descobri sozinho com minha turma a maior parte dos prazeres do surfe. Lugares para ficar, praias novas para explorar, amigos cúmplices de um estilo de vida.

Lembro de uma vez que estava na casa de um amigo, o Duda, e chegou o Dênis, que tinha acabado de voltar de Santa Catarina. Para nós, com 13 e 14 anos, Santa Catarina era a fronteira a ser explorada. Praias em que era possível entrar no mar pelo canal, rios que desaguavam no mar, ondas perfeitas. Eu tentava imaginar como seria aquilo. Qual seria a diferença daquelas praias em relação às que eu conhecia? E tive de esperar um bom tempo até chegar lá, até ter a primeira oportunidade de ir.

Lembro da primeira surftrip com amigos, aos 17 anos, a bord de um Escort azul, do Simpson. Gugu pilotava e Pirica era o quarto integrante da trip. Chegamos em Florianópolis e fomos direto para o Camping da Lagoa. Ingenuamente, colocamos a barraca em cima da areia, preocupados com a ‘maciez’ da cama. Foram preciso apenas 12 horas para que já estivesse cheia de areia. A primeira praia que fomos conferir foi a Brava, ao norte de Floripa. Antes de chegar na areia é preciso vencer um morro alto que serve de mirante para o visual maravilhoso da Brava — ou era assim até a especulação imobiliária encher de prédios por lá. Lá de cima, vimos os riscos brancos simétricos preenchendo o mar azul. De longe, não dava para ver o tamanho das ondas, mas lembro de darmos pulos de felicidade com o visual e com a qualidade das ondas que nos esperavam. Em poucos minutos já estávamos dentro da água para o banho mais clássico que já dei na Brava até hoje. Nunca encontrei um mar igual ou parecido àquele por  lá, apesar das inúmeras vezes que voltei com tal esperança.

Aquela foi a primeira de muitas e muitas surftrips. Desde então, minha cabeça virou. E até hoje eu sigo planejando a próxima trip. Quando, onde e com quem. Algumas dúvidas e uma certeza: a de seguir sempre em busca da onda perfeita.

Como o personagem de Winton, Pikelet, que cresceu, virou paramédico, mas nunca abandonou o surfe. O poeta gaúcho Mario Quintana, fumante que era, cunhou uma frase tolerável na época (hoje politicamente incorreta): “Desconfie dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar.” Eu arrisco outra: “Desconfie daqueles que já gostaram de surfar, mas desistiram. Em alguma esquina, eles perderam a vida interior.” Queria poder tentar entender…

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