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O que é importante

Texto publicado originalmente na revista Vida Simples, edição de 11/2011)

Aqui há muita coisa que importa

Em agosto passado, fui até a Ilha Grande, no Rio de Janeiro, para organizar um TEDx in a Box, programa piloto do TED para eventos com poucos recursos. O público foi a brigada mirim ecológica, formada por jovens na faixa dos 14 anos que realizam ações ambientais na ilha.

Estávamos preparando o evento na Vila de Abraão, a comunidade principal da ilha. Era um dia de semana, com céu cinza, contrastando com a água verde-esmeralda da baía. Um dia ordinário na Ilha Grande. De repente, no casarão onde o evento seria realizado, surgiu a Neuseli. Na casa dos 50 anos, por volta de 1,60 metro, cabelos curtos brancos, brancos, Neuseli roubou a cena quando chegou contando sobre o livro Onde Deixei meu Coração, que havia escrito sobre a praia do Aventureiro, a dez horas de caminhada dali (somente carros oficiais circulam na ilha).

Neuseli tinha acabado de chegar de Aventureiro e no dia seguinte já iria voltar, como se estivesse indo na esquina comprar pão. Ela esbanja vitalidade e – mais importante – felicidade. Aproveita como ninguém a liberdade de ir e vir, ainda mais porque já se discutiu a retirada de moradores para preservar a praia de Aventureiro. Mais recentemente levantou-se a discussão sobre transformá-la numa Reserva de Desenvolvimento Sustentável, assim os moradores não precisariam sair de lá.

Em entrevista a um site, Neuseli diz que a maioria da comunidade não quer se mudar. “Sabemos conviver com a natureza. Queremos o direito de permanecer nesta localidade e meios dignos de sobrevivência, como plantar, pescar, fazer turismo (…).”

Vendo sua disposição e alegria de pertencer àquele lugar, eu me lembrei, primeiro, de um amigo que escreveu no Twitter dia desses: “Onde tem natureza, não tem miséria”. Em seguida, me veio a imagem de uma família de balinesas com quem convivi por dois meses entre as sessões de surfe numa viagem para a Indonésia. Eram mulheres que tinham apenas roupas, uma casa humilde, comida e família. Sua fonte de renda eram as massagens que faziam em pequenas construções de madeira nas praias paradisíacas de Bali. Não pegavam trânsito, não se atrasavam para os compromissos, não tinham dívidas para pagar a TV de LCD e não queriam sair de lá. Mais conforto poderia ser bom para elas, mas, sem saber disso, viviam a vida com sorrisos no rosto.

Vendo a felicidade da Neuseli e lembrando-me das balinesas, comecei a pensar na vida agitada da cidade, na poluição das grandes metrópoles, no trânsito, na sedução do consumo… E continuei pensando, até pegar o avião de volta para São Paulo, entrar novamente na rotina agitada e encontrar um tempo para escrever este texto…

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Quem nasceu para Rio de Janeiro pode virar Costa Amalfitana?

Rio de Janeiro algum dia pode virar a Costa Amalfitana?

Quando pisei em Positano, em 2002, foi impossível não lembrar das favelas do Rio de Janeiro. Lembro direitinho de ter brincado com minha esposa dizendo que aquilo ali não era muito diferente do Rio de Janeiro, só mais chic. Casas penduradas em uma encosta à beira mar, uma colada na outra, pequenas ruelas servindo de ruas. É ou não é uma descrição que lembra as favelas do Rio? Com um pouco de boa vontade e um banho de IDH, não poderia o Rio virar um pedaço do mediterrâneo em solos tropicais? No meio desta semana tive a sensação de que essas ideias não eram delírios só meus.

Não, teve alguém que foi mais a fundo nessa ideia maluca. O nome dele é Rolf Glaser, um empresário alemão, que colocou R$ 1,1 milhão de reais na ideia de transformar o Rio em Positano! A matéria que conta a história dele no Estadão fala de sonhos de banho de IDH, mas entregue um belo balde de água fria. Esbarrou na burocracia, na falta de vontade, em obstáculos intransponíveis. A frase dele é melancólica: “Perdi muito dinheiro. A prefeitura fez uma série de exigências e inviabilizou o negócio. Acho que algumas pessoas não gostam da favela, mas também não querem fazer nada para mudar a comunidade”, avaliou Rolf.

O alemão sonhou grande e morreu longe da praia. Foi embora para a Alemanha. Detalhe que está perdida em um canto da matéria: Positano já foi uma região pobre, resgatada com investimentos privados.

Quanto teremos de coragem, audácia e vontade de mudar para fazer o Rio de Janeiro diferente, melhor, até 2016. É um sonho ou um delírio?

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O consumismo e o crime do AfroReggae

O assunto do assassinato de Evandro João Silva, do AfroReggae continua nos jornais. Hoje está com um bom espaço, mas duvido que fique até 4a feira nos jornais.

Já estive do lado da imprensa, fazendo a cobertura de assuntos como esse ou muitos outros. A vida sempre continua. E outros assuntos surgem. Notícias econômicas, culturais, sobre esportes e… sobre crime. Até 4a feira, outro crime chocante, outra notícia impactante, ocupará os jornais e deixará o assunto do AfroReggae de lado. Não é uma visão cínica, cética ou pessimista. É apenas tristemente realista. E não estou colocando a culpa nos jornais, mas na roda viva da violência, dos crimes estúpidos, de ações nonsense, da lógica de um mundo em transformação que simplesmente não encontra espaço para dar boas condições de vida para 6 bilhões de pessoas.

Somos movidos pelo hiperconsumismo que todos nós validamos e estimulamos via novelas, shopping centers e pelo desenvolvimento frenético da tecnologia. Aparelhos tecnológicos com não mais do que dois anos de vida são transformados  em lixo com o ‘novo lançamento’.

Nem todos têm dinheiro para comprar. Mas todos querem. Há mais de 15 anos, voltei de uma viagem ao exterior e presenteei meu irmão com um tênis adidas inédito no Brasil. Chamava a atenção. Foi parar nos pés de um ladraozinho de tênis qualquer. Ontem, a babá do meu filho contou que seu filho também teve os tênis (novos) roubados.

A mesma história de 15 anos, mas não a mesma história do AfroReggae. Essa acabou muito pior. Acabou em morte.

Hoje, sete dias depois da morte, o coordenador do AfroReggae José Junior publicou a carta abaixo no jornal.

Carta publicada por José Junior no Estado de S. Paulo em 24/10/09

Carta publicada por José Junior no Estado de S. Paulo em 24/10/09

Tristemente chocante.

O que pode ser feito para mudar essa realidade? Conhecer e apoiar de alguma maneira o trabalho do AfroReggae (site e flickr) já é um jeito de fazer algo.

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Arquivado em Questões, Sustentabilidade

“Bandidos fardados”? O chocante crime do AfroReggae

A história do crime do integrante do AfroReggae é muito chocante. Evandro João da Silva, um ‘guerreiro’, como o José Junior, coordenador e criador do movimento falou, levou um tiro de bandidos que levaram seu casaco e tênis. Alguns segundos depois do crime, os policiais (“bandidos fardados”, nas palavras de Junior) abordaram os bandidos e…  roubaram o casaco e o tênis que haviam roubando de Evandro. E passaram pelo corpo de Evandro, que agonizava no chão. E não fizeram nada! Isso mesmo: nada. Um outro integrante do AfroReggae diz que passou 50 minutos depois por ali e o coração dele ainda batia. Talvez tenha morrido por falta de socorro.

Certos da impunidade, não contaram com as imagens que estão circulando na mídia.

Amanhã certamente estará em todos os jornais.

Coração batia 50 minutos após o crime

Estou lendo um livro maravilhoso do Ítalo Calvino: “Seis propostas para o próximo milênio”. São seis lições dadas em Harvard, sobre as quais comentarei aqui em algum momento em outro post. A primeira dela é leveza e de lá tirei uma frase incrível: “A literatura tem função existencial. É a busca da leveza como reação ao peso de viver.” Genial. Diz tudo sobre esse momento. Longe de pensar que essas palavras são literatura, faço uma pobre comparação. A leveza das palavras, nesse caso, servem para elevar o espírito de indignação.

Enquanto houver indignação, haverá esperança. Principalmente de parar essa onda de má notícias do RJ. Mas para isso é preciso agir, fazer algo.

Segue o indignado desabafo da minha amiga Priscilla Navarrete, consultora de sustentabilidade, sobre esse caso.

Amigos,

Os que me conhecem sabem que sou mais de bastidores e jogo de xadrez do que de palco e karaokê, mas tem horas que a voz vem tão forte que não dá para segurar. Como não tenho site, blog ou revista, resolvi usar o “tradicional�” e-mail para colocar para fora o que está aqui dentro.

Li no Estadão hoje: “PMs são presos por roubar ladrões, deixá-los fugir e não socorrer vitima que agonizava�€. Vítima que agonizava??!!!

Todos os que trabalham com sustentabilidade sabem que hoje a “bola da vez” é a tal da materialidade que pressupõe o tal do engajamento. Eu mesma sou professora de engajamento, consultora de engajamento, facilitadora de engajamento…mas o que é e para quê serve esse engajamento mesmo?

E o que a morte do Evandro tem a ver com o raio do engajamento? Talvez essa ligação esteja só dentro da minha cabeça, mas aqui dentro essa ligação é tão clara!

Quando foi que começamos a nos preocupar mais com os fatos do que com as pessoas por trás desses fatos? Quando foi que começamos a nos relacionar com papéis e não com pessoas? Quando foi que começamos a engajar e “sustentabilizar�” para preencher questionário de Dow Jones, ISE e GRI sem de fato ouvir e considerar o que essas pessoas dizem? Por que mesmo estamos fazendo isso tudo? Será que viramos todos (“sustentabileiros�” ou não) burocratas da sustentabilidade?

Não era uma vítima que agonizava, NÃO ERA QUALQUER UM!!! E não que eu ache que uma vida vale mais do que outra, mas era o Evandro. Tive a oportunidade e o privilégio de trabalhar por um curto período de tempo perto do Junior e do Evandro. Eles sim sabem engajar! Eles sim sabem “sustentabilizar�”! Eles sim sabem conectar!

Quem conhece o trabalho do AfroReggae sabe do que eu estou falando. Eles sim tinham relacionamentos com indivíduos. Eles praticavam a tal da interdependência que nós teorizamos. Como diz o Junior “Tamo junto e misturado�”. Eles engajaram presidentes de bancos com presidentes de ONGs, traficantes, com paulistinhas bem nascidas (eu, no caso), artistas com a favela, facções inimigas do tráfico, policiais e bandidos, favelas do Brasil com favelas da ͍ndia, etc.”

Lembro que quando saí da empresa multinacional onde trabalhava e que apoiava um dos projetos do AfroReggae e liguei para o Junior para falar que uma outra pessoa cuidaria do projeto que tínhamos em parceria com eles, ele me disse uma coisa que eu nunca vou me esquecer: “O que me importa não é a doação. Para onde você vai? O que me importa é perder uma pessoa que de fato se importa. E agora, como vai ser?�€. Ele ficou bravo de verdade.

Isso é engajamento! Engajamento de pessoas, engajamento de propósitos, engajamento de valores. Não sei como, mas precisamos retomar o propósito da sustentabilidade, porque estou convicta que não há índice de sustentabilidade, prêmio, nova tecnologia, produto “verde�€ diretriz ou política que vai nos fazer mudar a rota com a velocidade que precisamos se não  voltarmos a nos conectar. Conexão com a nossa própria humanidade para que possamos então buscar o real engajamento com os outros.

E daí, talvez, não nos seja mais possível passar o ano todo preenchendo questionários para ganhar prêmios e selos sem lembrarmos de que é por causa das pessoas que estamos fazendo isso, fazermos belos discursos e humilharmos nossos funcionários, nos auto-intitularmos líderes de sustentabilidade e não conseguirmos trabalhar em rede, promover painéis de diálogo com stakeholder sem de fato ouvir e considerar o que essas pessoas nos dizem… ou passar ao lado de uma pessoa, um indivíduo, um ser humano, um líder, um guerreiro agonizante e ignorá-lo porque a nossa única preocupação é levar um casaco e um tênis de marca para casa.”

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Rio Breaks – o incrível documentário sobre o surfe na favela

Recebi uma grande notícia hoje: a de que o documentário de um grande amigo, o Vince Medeiros (ex-colega de Faculdade de jornalismo e ciências sociais), havia ficado pronto. Tudo começou quando o cara fez uma matéria sobre o surfe na favela. A turma do Cantagalo que ia surfar no Arpoador. O assunto era bom demais e chamou a atenção de um filmmaker, que resolveu fazer um documentário. (Foi assim, certo, Vince?)

E o timing não poderia ser mais perfeito. O surfe do pessoal da favela joga na cara de todos a incrível possibilidade que o esporte traz. E veio a público pouco depois da divulgação do Rio nas Olimpíadas. Muito bom. Vai ajudar a dar uma boa turbinada na divulgação.

Segue o link do trailer e alguns links de onde foi selecionado. Agora, é torcer para levar!

festival do rio:

http://www.festivaldorio.com.br/site2009/filmes/mostras.php?id_mostra=12

hawaii international film festival (best doc):

http://hawaii.bside.com/2009/films/riobreaks_hawaii2009;jsessionid=7C9EB6409B74F1D3401B43D254A70912

sundance channel:

http://www.sundancechannel.com/films/500532654

little white lies review:

http://www.littlewhitelies.co.uk/blog/rio-breaks-

ps: O Vince toca uma revista muito legal em Londres a Huck Magazine.

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Empreendedorismo é isso aí

É cada uma… Vejam esse e-mail que recebi.

Este, sim, é um empreendedor!

Já vi Picanha na Tábua, Peixe na Telha, Lingüiça no Pão, etc…

Mas em pleno carnaval de 2009, no CENTRO DA CIDADE do RIO DE  JANEIRO,
em frente à agência do Banco do Brasil na Rua Senador Dantas, um cara
monta uma barraca sobre um ralo (bueiro) e ganha uns trocados por sua
criatividade.

É o Xixi no ralo!!!

Será que ele volta no ano que vem? Talvez, desde que o governo não crie mais uma estatal para explorar esse nicho de mercado!!!


Xixi a 50 centavos

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Quero sentir o chão!

Hoje aconteceu uma coisa inédita. Cheguei no aeroporto para pegar um avião para o RJ e lembrei que não havia levado nada para ler nos ares! Se tem algo que não esqueço é disso… Por sorte, na sala de embarque havia uma livraria dessas de aeroporto. Comecei a olhar os livro em busca de novidades. Fiquei surpreso com a quantidade de literatura descartável. Não havia nada que prestasse. Ou o que me chamou a atenção eu já havia comprado (e esquecido). Aí, lembrei que um amigo me havia sugerido ler “Dois irmãos”, de Milton Hatoum, do qual ainda não li nada, mas estou curioso para ler a coluna que vai estrear no Estadão. A referência do livro veio em função do papo que tivemos sobre quando o primeiro filho ganha um irmão (Augusto e Vicente). Não consegui encontrar e acabei comprando um de Amós Oz, o mais importante escritor israelense da atualidade (já ouvi várias críticas boas dele e resolvi testar). Ainda comprei uma Época Negócios (revista com uma pauta de vanguarda, sobre a verdadeira nova economia — com foco na sustentabilidade = lucros + cuidados sociais + cuidados ambientais – e não naquela nova economia que as revistas e jornais enchiam o saco falando na época da descoberta da internet. A mesma que explodiu junto com a bolha da internet, quando os especialistas perceberam que a internet nada mais era novo — e excelente — canal de distribuição. Parece simplista, mas em resumo não é isso?)

 

Ainda bati o olho em uma revista Surfer, no especial de fotos do ano. Tenho uma espécie regra pessoal de não comprar revistas de surfe se não estou em um destino de surf. Sou avesso a masoquismo. E sofro muito vendo fotos de altas ondas, altos lugares, quando estou longe de cair na água. Mas não resisto a ler e sonhar por breves minutos… Vida de surfista-em-metrópole-longe-do-mar-com-dois-filhos-pequenos não é fácil!

 

No final das contas, estou aqui escrevendo e não coloquei os olhos no livro… Alguém um dia ainda vai dar uma explicação racional (emocional não precisa, são várias) para essa tara que as pessoas têm de comprar livros… Ontem mesmo cobicei fortemente o livro “Rayuela”, do Julio Cortázar, que estava na mão de uma colega, a Carol. Disse a ela que queria MUITO aquele livro, que não adiantava ser emprestado. Era uma edição superbacana em espanhol. Dessas que só se compram em viagens. Que inveja!!

 

Para acabar, uma tiradinha poética do Augusto na volta da escola com a vovó Lilica. Ao ser perguntado se queria voltar a pé ou de táxi para a casa com minha mãe, saiu-se com essa: “Prefiro voltar a pé porque eu gosto de sentir o chão.” Top 3, sem dúvida!

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